Brasil-Mundo - O coração do teatro brasileiro em Nova York resiste, apesar da pandemia

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A pandemia da Covid-19 abalou os planos do Group.BR de remontar o espetáculo imersivo “Inside the wild heart” para o centenário de Clarice Lispector, em 2020. A solução para levar o trabalho ao público foi realizar uma montagem transmídia para exibição em uma plataforma digital. O resultado reafirma que uma crise traz a possibilidade de se descobrir algo novo. Frida Sterenberg, correspondente da RFI em Nova York “Inside the wild heart” é um espetáculo imersivo inspirado na vida e obra de Clarice Lispector. A criação é da dupla Andressa Furletti e Debora Balardini, cofundadoras do Group.BR, a única companhia de teatro brasileiro em Nova York. Andressa, artista multidisciplinar nascida em Belo Horizonte, e a curitibana Debora, atriz e diretora, se conheceram em Nova York. Em 2011, com o ator Thiago Felix, fundaram a companhia de teatro Group.BR. A missão é apresentar e preservar a cultura brasileira por intermédio das artes cênicas. Em 2015, quando as duas mulheres se viram à frente da companhia, elas começaram a explorar e se aprofundar na obra de Clarice. Andressa conta o que atraiu as parceiras ao universo da escritora. “O fato dela ser uma autora, mulher, ser imigrante. Por ela ser refugiada, por ser uma pessoa muito à frente do seu tempo, que sofreu muitas consequências disso, mas deixou um legado muito grande e abriu espaço para muita gente", destacou. Debora diz que a escolha dos textos não foi nada fácil, e que elas se deixaram envolver pelo aspecto sensorial de Clarice para guiá-las nesse processo. “A leitura de Clarice, ela é muito simples. Mas, ao mesmo tempo, complexa no sentido de que bate realmente muito forte. Então quando esses textos batiam, essa escolha era certeira.” Debora e Andressa foram desvelando os temas que se repetiam pela obra da escritora. “Em todos os livros, você vai achar em algum momento uma reza, uma questão sobre a fé, sobre Deus, ela vai sempre achar uma questão sobre a liberdade, sobre a identidade, sobre ser mulher, sobre ser mãe. São os pilares da obra dela que estão ali.” Ao todo são 11 temas, incluindo a música que permeia o espetáculo com o violinista Mario Forte. Cada ator carrega um tema por meio de uma personagem. Elementos cênicos inspirados nas ficções de Clarice se misturam a detalhes quotidianos de sua vida: o café, os remédios, a máquina de escrever, o cigarro. Na experiência imersiva, o público se desloca pelos espaços com total liberdade. “Você faz a sua própria estória, na realidade. Você tem várias escolhas. Tem gente que fica no primeiro andar, não vai para o segundo e terceiro. Tem gente que segue um único ator. Nós temos uma pessoa que veio assistir acho que cinco vezes, e cada vez ele seguiu um ator.” A primeira temporada, dirigida por Regina Miranda, estreou em 2016, mas ainda não traduzia o que a dupla desejava. Decidiram reestruturar o texto e procuraram a diretora Linda Wise, com quem já haviam feito workshops em Nova York e Paris, onde ela vive. Linda não hesitou. Ela veio da França conhecer os atores e retornou para uma residência de dois meses durante a produção. Linda contou, em inglês, sobre o seu enfoque na direção. “Quando a atuação acontece em vários espaços simultaneamante, há um limite do que um diretor pode controlar. Você precisa confiar muito nos atores. Então, perceber o que a linguagem de Clarice inspirava nos atores, ao invés de impor aquilo que ela inspirava em mim, foi também uma forma de dar autonomia aos atores em sua criatividade com o material.” O espetáculo reestreou em 2018 e fez temporada num casarão histórico, em Manhattan. Para 2020, ano do centenário de Clarice, o Group.Br tinha planos de remontá-lo. Mas a pandemia bateu e o projeto tornou-se impossível. Elas tinham material gravado e editado em vídeo. Debora e Andressa se perguntaram se seria possível transformar um espetáculo teatral imersivo em uma experiência online que fizesse jus ao trabalho da montagem ao vivo. Andressa diz que um dos maiores desafios era a simultaneidade das cenas. “A gente ficou nessa expectativa de encontrar uma plataforma que apresentasse essa possibilidade. Aí a gente foi convidada para um encontro de criadores de arte imersiva, e quando eu entrei na plataforma, na hora mandei uma mensagem: 'Debora, isso vai funcionar para a gente!'” Na versão online, o espectador cria um avatar e caminha pelos ambientes virtuais, assistindo às cenas em vídeo, ouvindo textos, e pode inclusive interagir com outros espectadores num espaço público adequadamente chamado de “bar”. Experiência inovadora conquista estudantes “Inside the wild heart” estreou na plataforma em dezembro em curtas temporadas, públicas e fechadas. A Câmera de Comércio do Brasil em Nova York promoveu uma apresentação em março. Algumas universidades americanas também se interessaram. Ana Cândida Carneiro, dramaturga e artista visitante no Amherst College, em Massachussets, apresentou “Inside the wild heart” aos seus alunos no curso de “Escrita para performance”. “Os alunos adoraram. Eles adoraram ter contato com um material que é tão diferente para eles, pois ninguém sabia nada de Clarice Lispector, ninguém sabia nada de cultura brasileira a mais do que eu posso trazer. Mas eu tive alunos muito entusiasmados com o fato de perceber que eram a plateia também. Eles chegam com umas ideias ainda muito tradicionais. Teatro não é só aquele teatro frontal, do proscênio. Nós podemos pensar de forma muito diferente. Como que a gente envolve a plateia? Como que a gente cria uma dramaturgia em que o texto não é necessariamente central, mas que pode ser um dos elementos importantes?” Linda, a diretora do espetáculo ao vivo, aplaudiu a adaptação da dupla na versão online. “É claro que não é a mesma coisa que ao vivo, mas te dá oportunidade de ver de forma diferente, permite ter um outro tipo de experiência. O que se perde na energia e no prazer da fisicalidade, se ganha em intimidade e na demanda de um outro tipo de atenção ao espetáculo.” “Inside the wild heart” continua na plataforma digital para grupos fechados. Logo que possível, o Group.BR pretende remontar o espetáculo ao vivo. Mas não só em Nova York. Andressa fala do sonho de levar a peça ao Brasil. “Principalmente para Recife. Tem um projeto de revitalização da casa dela. Mas a casa está abandonada, está em ruínas, está fechada. Então a gente adoraria fazer esse espetáculo lá.” A atualidade da obra de Clarice Lispector parece ainda mais óbvia em tempos de pandemia. “Inside the wild heart” termina com um fragmento da dedicatória da autora em “A Hora da Estrela”, seu último livro, publicado em 1977, durante o período de ditadura militar no Brasil: “Essa história acontece em estado de emergência e calamidade pública. Trata-se de um livro inacabado porque lhe falta a resposta, resposta esta que espero que alguém no mundo me dê.”

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